De uns anos para cá na empresa onde eu trabalho, decidiram montar uma Comissão para Inclusão das Minorias com representantes de todos os departamentos. O RH queria melhorar o relacionamento dos empregados e fazer com que nós trabalhássemos mais felizes.
Foi um tal de pesquisa para cá, seminário de integração para lá, projetos e mais projetos visuais.
No ano passado, por volta de janeiro, chegávamos para trabalhar e já na portaria havia “banners” incentivando ora a inclusão de deficientes físicos, ora a igualdade de oportunidades para homens e mulheres, negros, japoneses, nordestinos... todo mundo! A tal Comissão dizia que ia ficar de olho nas chefias que praticavam assédio moral. Uma beleza!
No final de fevereiro, a empresa anunciou um lucro recorde e decidiu fazer uma “gracinha”. Para comemorar o dia 8 de Março – Dia Internacional da Mulher, pediram que preenchêssemos um formulário dizendo o que gostaríamos de ganhar neste dia e o porque.
Foi aí que eu vi a oportunidade que faltava: pedi para ganhar de presente um emprego para meu marido e contei nossa estória.
O Rubens era contador formado. Trabalhou a vida toda para um escritório grande. Começou muito cedo, era boy mas estudava à noite e ia à pé para o trabalho, economizando para os livros. Quando ele terminou o curso técnico deram a chance para ele ser escriturário. Ficamos noivos. Ele tinha um chefe maravilhoso, o Sr. Lorival. Ensinava tudo para o Rubens depois do expediente e em menos de 5 anos ele foi promovido a Técnico de Contabilidade Jr. . Aí casamos!
Eu até queria curtir mais só nós dois mas ele chegava muito tarde em casa e sempre tinha trabalho aos sábados, então engravidei logo e fui curtir meu filho. Quando o Rubens passou a Técnico Pleno, resolvemos tentar uma menina mas veio o Robson. Foi difícil segurar sozinha a barra de dois guris espoletas. Eles ficavam com minha sogra para eu trabalhar mas mal chegávamos em casa à noite e eles faziam a maior bagunça enquanto eu cozinhava e lavava a roupa. Só conseguia passar a roupa depois de por os dois pra dormir.
Quando o mais novo fez 10 anos o Rubens foi promovido para Chefe e resolvemos tentar nossa menina. Demorou um bocado por que nessa época o Rubens estava sempre cansado e sem disposição para ... bem.... Dois anos depois veio a Rita de Cássia. Uma alegria só !
Mas aí minha sogra ficou viúva e teve de vir morar com a gente. Ela sempre teve pouca saúde mas foi ela que enterrou o marido.
Nos endividamos um pouco e financiamos uma casa para caber a família crescida, mas não durou muito e o Rubens perdeu o emprego.
Depois dos
Vendemos a casa e fomos todos morar num puxadinho no terreno da minha mãe.
O Rubens não consegue mais, sabe como é... namorar. Eu sou a única que trabalha em casa, e também fora dela. Na verdade, eu já nem podia me recusar a fazer horas-extras por causa da reestruturação produtiva da empresa. Minha aparência foi ficando desleixada, mas eu deixava o almoço pronto e dava café para as crianças antes de sair pro trabalho. À noite, já era eu que não queria... namorar. Era tanta roupa para passar que às vezes varava noite. Faxina eu só fazia nos sábados. Mas aos domingos, aí sim, depois da feira e de preparar o almoço eu caía no sofá e só acordava no dia seguinte.
Tudo o que eu queria era um emprego para meu marido mas quando chegou o 8 de Março, o que a empresa distribuiu mesmo foram batons e espelhinhos para todas nós.
E o Rubens continua desempregado.
conto de Jô Portilho

4 comentários:
Jo excelente texto...
Parabens ao SEEB RJ pela iniciativa.
Bem oortuna a mensage. Mostra o quanto ha de equivoco na forma como o capital e boa parte da sociedade vêem a mulher...
JUÇARA PORTILHO, NÃO SABIA DE SEU TALENTO LITERÁRIO!! A GENTE PENSA QUE CONHECE AS PESSOAS E AÍ SOMOS SURPREENDIDOS, FELIZMENTE QUE COM VOCÊ AS SURPRESAS SÃO SEMPRE BOAS, OU MELHOR, ÓTIMAS. PARABÉNS.
PS.: JÁ PENSO NUM "O BOLCHEVIQUE" ASSIM...RSRS.
Um texto brilhante: nos remete ao tempo em que nos davam espelhinhos e levavam nosso ouro.
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