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sexta-feira, 14 de março de 2008

O Comedor de Promessas

Alfredo era pequeno quando ficou órfão. Não conheceu o pai. Uma tia apiedou-se dele e resolveu criá-lo. Murmurava em suas orações para que deus não desse um destino de sofrimento para o pequeno órfão.

Numa certa manhã a tia não se levantou da cama. Alfredo gritou por socorro. Uma vizinha foi até onde se encontrava a pobre mulher e constatou que ela estava morta. Alfredo seguiu o enterro o tempo todo apoiando-se levemente no caixão. Ao ver a tia sumir debaixo da terra, não verteu lágrimas. Mas sentiu como se um rio corresse dentro dele.

Foi morar na casa dos padrinhos. A partir daquele dia, lutou ferozmente contra a miséria. Com a ajuda modesta daqueles que o haviam batizado, venceu-a parcialmente. Conseguiu um emprego com carteira de trabalho assinada. O emprego não era lá essas coisas. Mas, o que há de se fazer? Talvez um dia conseguisse uma “colocação” em um banco, quem sabe!?

Alfredo saiu para o trabalho no mesmo horário de sempre. O dia passou lentamente. A tarde caiu lentamente. As seis horas, Alfredo marcou o ponto, pegou suas coisas e correu para o ponto do ônibus com destino a Central do Brasil.

Quando chegou na Central, deparou com uma imensa manifestação. Sentiu-se perdido em meio ao povo e ao mesmo tempo atraído pela massa humana. Alfredo misturou-se à multidão e logo juntou-se aos manifestantes.

A palavra foi cedida a um outro candidato. O orador fez pose como se estivesse em plenário. Empunhou o microfone e disparou:

— Trabalhadores do Brasil. Hoje, aqui nesta praça, estamos juntos nessa luta. Se reeleito for, prometo uma mesa farta, muita comida na...

Foi então que se ouviu um grito aterrorizante. O homem do microfone calou-se. Os olhares voltaram-se em direção à pessoa que havia gritado. No chão Alfredo se contorcia com as mãos na barriga, os olhos arregalados e sem poder falar. Estabeleceu-se o pânico. Um dos líderes dos manifestantes, tentando contornar a situação, gritou pelo microfone:

— Calma pessoal, vamos levá-lo para o Souza Aguiar.

Um taxista se prontificou a conduzir o enfermo, desde que tivesse testemunha.

— Só se tiver testemunha, frisou.

A multidão abriu caminho. Enfiaram Alfredo no banco traseiro e o carro saiu cantando pneu. Na emergência do hospital formaram uma junta médica para examinar o caso. Após os exames, os médicos não falaram a um só tempo:

— É congestão! É congestão!

O que foi que o senhor comeu hoje? - perguntaram.

Para desespero dos médicos, Alfredo não conseguia falar. Fez um gesto vago. Tomaram as medidas cabíveis. A barriga murchou e Alfredo voltou a respirar normalmente. Ficou internado uma semana (para observação, justificaram).

Alfredo se recuperou e foi liberado. Ao ver-se a rua, a liberdade trazida pelo ar. Ao passar por uma banca de jornais, viu sua foto estampada com a seguinte manchete: “Comedor de promessas recebe alta hoje”.

Quase passou mal outra vez. Apavorado, só queria pegar o trem e voltar para casa. Com esse pensamento, Alfredo não observou a aproximação de uma multidão que se deslocava em sua direção. Em pouco tempo já estava cercado e era olhado como um ser de outro planeta. A notícia do comedor de promessas já havia se espalhado. Os fotógrafos disparavam flashes em sua direção. A rua foi interditada e em poucos minutos o caos estava estabelecido. Teve vontade de sair correndo, mas sentiu o chão lhe faltar sob os pés. A multidão se estreitava cada vez mais em volta dele.

De repente um helicóptero surgiu como que do nada. Os policiais da tropa de choque, já em ação, forçaram a abertura de uma clareira na multidão. Assim que o aparelho pousou, desceram três homens armados com pistolas. Calmamente pegaram Alfredo pelo braço e levaram-no para o interior do aparelho. Com habilidade extraordinária, o piloto alçou vôo e logo o helicóptero se perdeu na distância.

No interior do helicóptero, todos estavam calados. Até que, rompendo um silêncio torturante, um dos homens à direita de Alfredo falou com sotaque de gringo:

Nosso governo está protegendo a sua vida.

Mas por que, meu Deus do céu? - perguntou Alfredo. .

Você é uma ameaça para a humanidade e para os negócios do meu país.

Mas eu não fiz nada - balbuciou Alfredo.

Não fez? Pode ser que sim, pode ser que não – continuou o homem – mas o nosso governo quer saber como adquiriu a capacidade para a auto-alimentação.

Auto-alimentação?

Ao ouvir determinadas palavras, você materializa o que é dito. E isso é grave. Grave e perigoso.

Os homens embarcaram em um jato da Força Aérea Norte Americana com destino aos EUA. Já em solo estadunidense, Alfredo foi conduzido para uma sala ampla e muito limpa. Um dos homens dos que o haviam trazido entrou na sala. Tomou Alfredo pelo braço. Ele deixou-se levar como se fosse um menino. Em verdade era assim que se sentia.

Seguiram até um amplo estacionamento, onde dois automóveis com outros homens os aguardavam. Vendaram os olhos de Alfredo e os carros deram partida. No ar ficou um cheiro de borracha queimada.

Quando lhe retiraram a venda, Alfredo encontrava-se em um laboratório. O diretor

dirigiu-se a ele falando um português impecável.

— Seja bem-vindo senhor Alfredo – disse num sorriso.

Alfredo fitou o chão e não disse nada.

— Senhor Alfredo – continuou o homem – eu sou o responsável por esse laboratório. Aqui é um centro de pesquisas altamente secreto. Igual a esse existem dois ou três em todo o mundo. E o senhor, devido ao seu talento inato, virou objeto de estudos. O nosso governo é generoso. Portanto contamos com sua colaboração.

Colaboração?

Senhor Alfredo – falou abaixando a voz – como é que o senhor faz isso?

Isso o quê?

Como consegue materializar no estômago o alimento que imagina?

Eu não sei – disse Alfredo num murmúrio.

Nesse caso – disse o diretor – teremos que continuar nossas pesquisas. Estamos muito preocupados. Imagine se o senhor ensinar às outras pessoas como se alimentar com os discursos, isto é, com as promessas, principalmente as promessas dos políticos, o mundo correria um grande perigo. Sendo assim – continuou ele como se falasse sozinho – vamos submetê-lo a uma série de exames. O senhor permanecerá conosco alguns dias mais.

Vocês vão me operar? – perguntou assustado.

O que é isso senhor Alfredo. Não precisa temer. Mas é melhor colaborar conosco. Se precisar de algo, basta pedir.

Eu não quero nada... Só ir para casa, disse.

O senhor irá. Enquanto isso, aproveite a nossa hospitalidade... Mister Alfred...

Algum tempo depois Alfredo foi trazido de volta. Não tomou conhecimento, mas a imprensa noticiou seu rapto e teve quem afirmasse que ele havia sido levado por um disco voador.

Do aeroporto tomaram um carro e hospedaram-no em um hotel na Zona Sul da Cidade. O homem de preto falou antes de sair batendo a porta atrás de si:

— Continuaremos com o senhor sob nossos cuidados até segunda ordem.

Alfredo ouviu em silêncio. Estranhamente se acostumara a calar. Tomou banho sem pressa. Em seguida deitou-se na cama. Acionou o controle remoto e ligou a TV. No vídeo, a mesma programação enfadonha de sempre. Decorrido alguns minutos, a emissora anunciou o horário eleitoral gratuito.

Alfredo não desligou a televisão. Abandonou-se na cama como quem se prepara para fazer uma longa viagem. Ficou assistindo aos programas dos partidinhos e dos partidões. Todos prometiam, prometiam, prometiam e prometiam...

Alfredo começou a passar mal e sentir fortes dores abdominais. De repente soltou um grito horrendo. O homem de preto invadiu o quarto. Da janela viu o corpo de Alfredo numa imensa poça de sangue lá embaixo na calçada.

escrito por Francisco Moreno.

quinta-feira, 6 de março de 2008

CONSOLAÇÃO

É este meu nome, Sônia Silva da Consolação.

De uns anos para cá na empresa onde eu trabalho, decidiram montar uma Comissão para Inclusão das Minorias com representantes de todos os departamentos. O RH queria melhorar o relacionamento dos empregados e fazer com que nós trabalhássemos mais felizes.

Foi um tal de pesquisa para cá, seminário de integração para lá, projetos e mais projetos visuais.

No ano passado, por volta de janeiro, chegávamos para trabalhar e já na portaria havia “banners” incentivando ora a inclusão de deficientes físicos, ora a igualdade de oportunidades para homens e mulheres, negros, japoneses, nordestinos... todo mundo! A tal Comissão dizia que ia ficar de olho nas chefias que praticavam assédio moral. Uma beleza!

No final de fevereiro, a empresa anunciou um lucro recorde e decidiu fazer uma “gracinha”. Para comemorar o dia 8 de Março – Dia Internacional da Mulher, pediram que preenchêssemos um formulário dizendo o que gostaríamos de ganhar neste dia e o porque.

Foi aí que eu vi a oportunidade que faltava: pedi para ganhar de presente um emprego para meu marido e contei nossa estória.

O Rubens era contador formado. Trabalhou a vida toda para um escritório grande. Começou muito cedo, era boy mas estudava à noite e ia à pé para o trabalho, economizando para os livros. Quando ele terminou o curso técnico deram a chance para ele ser escriturário. Ficamos noivos. Ele tinha um chefe maravilhoso, o Sr. Lorival. Ensinava tudo para o Rubens depois do expediente e em menos de 5 anos ele foi promovido a Técnico de Contabilidade Jr. . Aí casamos!

Eu até queria curtir mais só nós dois mas ele chegava muito tarde em casa e sempre tinha trabalho aos sábados, então engravidei logo e fui curtir meu filho. Quando o Rubens passou a Técnico Pleno, resolvemos tentar uma menina mas veio o Robson. Foi difícil segurar sozinha a barra de dois guris espoletas. Eles ficavam com minha sogra para eu trabalhar mas mal chegávamos em casa à noite e eles faziam a maior bagunça enquanto eu cozinhava e lavava a roupa. Só conseguia passar a roupa depois de por os dois pra dormir.

Quando o mais novo fez 10 anos o Rubens foi promovido para Chefe e resolvemos tentar nossa menina. Demorou um bocado por que nessa época o Rubens estava sempre cansado e sem disposição para ... bem.... Dois anos depois veio a Rita de Cássia. Uma alegria só !

Mas aí minha sogra ficou viúva e teve de vir morar com a gente. Ela sempre teve pouca saúde mas foi ela que enterrou o marido.

Nos endividamos um pouco e financiamos uma casa para caber a família crescida, mas não durou muito e o Rubens perdeu o emprego.

Depois dos 40 a coisa fica difícil... Já são 5 anos desempregado, um bico aqui, outro ali. Tentou fazer declaração de imposto de renda para os outros, dirigir táxi de madrugada em parceria com o primo... tudo informal.

Vendemos a casa e fomos todos morar num puxadinho no terreno da minha mãe.

O Rubens não consegue mais, sabe como é... namorar. Eu sou a única que trabalha em casa, e também fora dela. Na verdade, eu já nem podia me recusar a fazer horas-extras por causa da reestruturação produtiva da empresa. Minha aparência foi ficando desleixada, mas eu deixava o almoço pronto e dava café para as crianças antes de sair pro trabalho. À noite, já era eu que não queria... namorar. Era tanta roupa para passar que às vezes varava noite. Faxina eu só fazia nos sábados. Mas aos domingos, aí sim, depois da feira e de preparar o almoço eu caía no sofá e só acordava no dia seguinte.

Tudo o que eu queria era um emprego para meu marido mas quando chegou o 8 de Março, o que a empresa distribuiu mesmo foram batons e espelhinhos para todas nós.

E o Rubens continua desempregado.



conto de Jô Portilho