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quinta-feira, 6 de março de 2008

CONSOLAÇÃO

É este meu nome, Sônia Silva da Consolação.

De uns anos para cá na empresa onde eu trabalho, decidiram montar uma Comissão para Inclusão das Minorias com representantes de todos os departamentos. O RH queria melhorar o relacionamento dos empregados e fazer com que nós trabalhássemos mais felizes.

Foi um tal de pesquisa para cá, seminário de integração para lá, projetos e mais projetos visuais.

No ano passado, por volta de janeiro, chegávamos para trabalhar e já na portaria havia “banners” incentivando ora a inclusão de deficientes físicos, ora a igualdade de oportunidades para homens e mulheres, negros, japoneses, nordestinos... todo mundo! A tal Comissão dizia que ia ficar de olho nas chefias que praticavam assédio moral. Uma beleza!

No final de fevereiro, a empresa anunciou um lucro recorde e decidiu fazer uma “gracinha”. Para comemorar o dia 8 de Março – Dia Internacional da Mulher, pediram que preenchêssemos um formulário dizendo o que gostaríamos de ganhar neste dia e o porque.

Foi aí que eu vi a oportunidade que faltava: pedi para ganhar de presente um emprego para meu marido e contei nossa estória.

O Rubens era contador formado. Trabalhou a vida toda para um escritório grande. Começou muito cedo, era boy mas estudava à noite e ia à pé para o trabalho, economizando para os livros. Quando ele terminou o curso técnico deram a chance para ele ser escriturário. Ficamos noivos. Ele tinha um chefe maravilhoso, o Sr. Lorival. Ensinava tudo para o Rubens depois do expediente e em menos de 5 anos ele foi promovido a Técnico de Contabilidade Jr. . Aí casamos!

Eu até queria curtir mais só nós dois mas ele chegava muito tarde em casa e sempre tinha trabalho aos sábados, então engravidei logo e fui curtir meu filho. Quando o Rubens passou a Técnico Pleno, resolvemos tentar uma menina mas veio o Robson. Foi difícil segurar sozinha a barra de dois guris espoletas. Eles ficavam com minha sogra para eu trabalhar mas mal chegávamos em casa à noite e eles faziam a maior bagunça enquanto eu cozinhava e lavava a roupa. Só conseguia passar a roupa depois de por os dois pra dormir.

Quando o mais novo fez 10 anos o Rubens foi promovido para Chefe e resolvemos tentar nossa menina. Demorou um bocado por que nessa época o Rubens estava sempre cansado e sem disposição para ... bem.... Dois anos depois veio a Rita de Cássia. Uma alegria só !

Mas aí minha sogra ficou viúva e teve de vir morar com a gente. Ela sempre teve pouca saúde mas foi ela que enterrou o marido.

Nos endividamos um pouco e financiamos uma casa para caber a família crescida, mas não durou muito e o Rubens perdeu o emprego.

Depois dos 40 a coisa fica difícil... Já são 5 anos desempregado, um bico aqui, outro ali. Tentou fazer declaração de imposto de renda para os outros, dirigir táxi de madrugada em parceria com o primo... tudo informal.

Vendemos a casa e fomos todos morar num puxadinho no terreno da minha mãe.

O Rubens não consegue mais, sabe como é... namorar. Eu sou a única que trabalha em casa, e também fora dela. Na verdade, eu já nem podia me recusar a fazer horas-extras por causa da reestruturação produtiva da empresa. Minha aparência foi ficando desleixada, mas eu deixava o almoço pronto e dava café para as crianças antes de sair pro trabalho. À noite, já era eu que não queria... namorar. Era tanta roupa para passar que às vezes varava noite. Faxina eu só fazia nos sábados. Mas aos domingos, aí sim, depois da feira e de preparar o almoço eu caía no sofá e só acordava no dia seguinte.

Tudo o que eu queria era um emprego para meu marido mas quando chegou o 8 de Março, o que a empresa distribuiu mesmo foram batons e espelhinhos para todas nós.

E o Rubens continua desempregado.



conto de Jô Portilho

4 comentários:

Anônimo disse...

Jo excelente texto...

Anônimo disse...

Parabens ao SEEB RJ pela iniciativa.
Bem oortuna a mensage. Mostra o quanto ha de equivoco na forma como o capital e boa parte da sociedade vêem a mulher...

BOBAGENS.COM disse...

JUÇARA PORTILHO, NÃO SABIA DE SEU TALENTO LITERÁRIO!! A GENTE PENSA QUE CONHECE AS PESSOAS E AÍ SOMOS SURPREENDIDOS, FELIZMENTE QUE COM VOCÊ AS SURPRESAS SÃO SEMPRE BOAS, OU MELHOR, ÓTIMAS. PARABÉNS.
PS.: JÁ PENSO NUM "O BOLCHEVIQUE" ASSIM...RSRS.

francisco moreno disse...

Um texto brilhante: nos remete ao tempo em que nos davam espelhinhos e levavam nosso ouro.